

História Gravada é uma coleção criada em 2022 a partir de uma sequência de técnicas aplicadas pela Isabela Sales Design, na qual motivos da arte rupestre de Monte Alegre são desenhadas e gravadas manualmente sobre câmaras de pneus. A coleção tem como principal referência o Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA), localizado no município de Monte Alegre, na região do Baixo Amazonas, no Pará — território de origem da autora e presença constante em sua trajetória, tanto como inspiração estética e conceitual quanto como causa pessoal.
O PEMA reúne um conjunto singular de serras, grutas, cavernas e formações rochosas que alcançam mais de duzentos de metros de altitude. Ao longo de milhares de anos, esses espaços foram ocupados por diferentes povos indígenas, que deixaram vestígios de sua presença, entre eles pinturas rupestres, artefatos líticos e cerâmicos.
As pesquisas arqueológicas realizadas na região revelam a profundidade temporal dessa ocupação. Alguns vestígios encontrados em Monte Alegre apresentam datações que remontam a mais de 13 mil anos, enquanto outros pertencem a períodos bem mais recentes, evidenciando diferentes momentos da presença humana no território. Esses registros revelam uma história muito mais longa da ocupação humana na Amazônia por uma grande diversidade de povos indígenas. Longe de ter sido um espaço vazio, a região foi habitada e transformada por diferentes sociedades, que desenvolveram modos de vida, conhecimentos e relações próprias com o território.
As pinturas rupestres fazem parte desse patrimônio e se destacam pela diversidade de formas, cores e motivos. Embora conhecidas desde o século XIX séculos, as pesquisas arqueológicas sistemáticas só começaram a partir do final da década de 1980, com o trabalho da arqueóloga paraense Edithe Pereira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, contribuindo para o conhecimento e a difusão do patrimônio arqueológico de Monte Alegre.
É desse encontro entre memória, território, pesquisa e criação que nasce História Gravada. Ao transportar algumas dessas representações para objetos contemporâneos, a coleção busca aproximar esse patrimônio de novos públicos e despertar o interesse pelas histórias pintadas nas rochas da paisagem amazônicas. Conhecer esse patrimônio é também reconhecer a importância de preservá-lo, assim como os territórios e as paisagens que o abrigam. Ao transformar câmaras de pneus descartadas em suporte para essas narrativas, História Gravada aproxima também patrimônio cultural e responsabilidade ambiental, propondo novos sentidos para materiais residuais contemporâneos.
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Marajó em Linhas — Traços que trilham caminhos
Em 2023, no contexto da pré-COP30, foi idealizada a coleção Marajó em Linhas. Suas peças combinam a produção cerâmica marajoara contemporânea de Soure com finos fios de câmaras de bicicleta cortados manualmente. A coleção surgiu da busca por novas possibilidades de criação a partir desse material e do desejo de valorizar e incentivar a produção artesanal local.
É nesse encontro que se estabelece a parceria com Bruna Sampaio, artista e ceramista de Soure, criadora da marca Marajoinhas e integrante do Ateliê Arte Mangue Marajó. Bruna produz minuciosas peças cerâmicas, incorporando motivos iconográficos inspirados nas cerâmicas arqueológicas do Marajó. O Arte Mangue é um coletivo que há mais de duas décadas atua na produção e transmissão de conhecimentos ligados à cerâmica marajoara, articulando arte, território, educação e geração de renda.
Essas referências se conectam a uma longa história construída ao longo de cerca de três mil anos de ocupações indígenas no arquipélago do Marajó. Entre aproximadamente 400 e 1400 EC, desenvolveu-se a chamada fase arqueológica Marajoara, marcada por uma produção cerâmica de grande complexidade técnica, formal e iconográfica. Urnas funerárias, vasos e outros artefatos apresentam uma ampla diversidade de formas e representações geométricas, orgânicas, antropomórficas e zoomórficas.

Muitos desses vestígios são encontrados nos chamados tesos marajoaras, aterros monumentais construídos e transformados pela ação humana ao longo de sucessivas ocupações. Utilizados como espaços de habitação e também relacionados a práticas funerárias e cerimoniais, os tesos integram um complexo sistema de ocupação e manejo de uma paisagem profundamente marcada pelas águas e pelas cheias sazonais. Sua presença, ainda hoje perceptível no território, revela as transformações realizadas por esses povos na paisagem amazônica.
Essa relação com as águas também está presente em Marajó em Linhas. As raízes dos manguezais de Soure, os caminhos das águas, a canoa, a pesca e o pirarucu compõem as referências da coleção, aproximando paisagem, modos de vida e materialidade. Entrelaçados à cerâmica, os fios de câmaras de bicicleta assumem diferentes formas e movimentos, evocando raízes, redes e outros elementos que fazem parte da vida no arquipélago.
A arqueóloga Cristiana Barreto, pesquisadora das cerâmicas e iconografias arqueológicas da Amazônia, tem contribuído para mostrar a complexidade desses conhecimentos ancestrais aproximando os princípios que regem a composição das imagens do passado às artes das populações amazônicas contemporâneas. Suas pesquisas também dialogam com questões relacionadas à história das pesquisas arqueológicas no Marajó e ao destino das inúmeras peças retiradas de seus contextos originais e hoje dispersas em museus e coleções no Brasil e no exterior.
Essa história alcança também debates contemporâneos sobre o direito das populações marajoaras de acessarem seu patrimônio arqueológico. Em 2025, Cilene Oliveira e Ronaldo Guedes, fundadores do Ateliê Arte Mangue Marajó, juntamente com Cristiana Barreto, publicaram o Manifesto Marajoara, que reivindica a repatriação das coleções arqueológicas marajoaras a partir de uma perspectiva de restituição com reparação, envolvendo acesso, educação patrimonial e preservação desse patrimônio no próprio território.
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